21 - O "ladrão" ou A "lesada"
Naquela noite chuvosa, sem nada para
fazer, só lhe restava mesmo assistir novela. O marido só chegava mais tarde, aí
teria alguém pra conversar. Tinha uma “neura” com aquele imenso corredor
que levava à cozinha. O truque era sentar-se num canto da sala de onde não
se avistava a escuridão do corredor. Assim, não ficava com medo. Já não era mais
criança, mas o escuro a deixava tensa, parecia que a qualquer momento algo
aconteceria sem que ela pudesse enxergar quem estava lá. E, tranqüilamente, se deixou levar pela
distração que a TV lhe permitia.
Pow!
Pow! Um barulho estranho
vinha da cozinha. A porta de madeira a preocupava, pois na casa ao lado
funcionava um escritório e àquela hora já não havia
movimento.
Pow!
Qualquer ladrãozinho de meia
tigela conseguiria escalar o muro do tal escritório e pular no seu quintal,
talvez até para fugir do flagrante, sabe Deus. E aquela porta, fácil, fácil de
ser arrombada.
Silêncio! Baixou o volume da TV e, devagar, com o olhar tentando
alcançar o corredor, foi até o interruptor e acendeu as luzes da
sala.
Pow!
Deu um salto, alcançou a
porta da sala e, só de meias nos pés, saiu correndo para chamar a vizinha. Tocou
a campainha. Dona Maria Helena, de penhoar de flanela, correu ao portão,
percebendo o pavor da garota.
-
Dona Maria
Helena, por favor, eu to com medo. Tem alguém tentando entrar na minha cozinha.
Corre, vem comigo! - o medo estampado nos olhos.
-
Calma! Desse
jeito você acorda o Valdir. O coração dele não agüenta. Eu vou lá com
você.
Pegou o guarda-chuva
e a acompanhou.
Entraram juntas, Dona
Maria Helena ralhando com ela por ter deixado a porta escancarada daquele jeito.
-
Desse jeito,
se não entra pelos fundos, entra pela porta da frente mesmo. Você não tem juízo
não?
Mas seu
pensamento...
Pow! Dessa vez até a vizinha se assustou.
Olhou para ela com espanto. Alcançou a entrada do corredor e acendeu as
luzes.
-
Psiu! – e
mostrava o dedo indicador em sinal de silêncio.
Pé ante pé, as duas
passaram pelas portas do banheiro e dos quartos. Dona Maria Helena ía na frente.
Ela se escondia atrás da mulher, a tomando como
escudo.
À entrada da cozinha,
Dona Maria Helena parou, tocou o interruptor e a encarou. O pavor estampado em
sua face, esperando pelo pior.
-
Você deixou
alguma coisa no fogo?
-
Ahn????????
Ela alcançou a porta,
olhou para o fogão e viu que o fogo estava aceso, a tampa da panela no chão.
Aproximou-se:
-
Ai, meu Deus!
Esqueci dos ovos de codorna! Argh! Que cheiro horrível!
Escrito por Drica às 13h53
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